Ateus, Agnósticos e Conversão ao Judaísmo

TFN no.5754.15 147-152

Tradução: Uri Lam
Fevereiro de 2006

Sheelá

Uma candidata à conversão expressa um forte sentido de solidariedade comunitária e histórica com a vivência judaica. Ela considera que os serviços religiosos a preenchem, na medida em que a conectam ao passado judeu. Ela considera o Shabat importante para a sua conexão com o passado e papel deste para ela organizar e estruturar a semana e a família. Porém, está bastante insegura acerca da existência de Deus. Quando perguntada por seu rabino, “Há algum outro aspecto do universo além do material?” ela responde no negativo, porque acredita que as forças físicas e químicas são responsáveis pelo universo tal como nós o conhecemos. Como, após outros estudos, a discussão permanece, nossa pergunta é: um ateu comprometido com a prática, a ética e o estudo judaicos pode ser aceito como um convertido? (Rabino Mark Dov Shapiro, Springfield, MA)...

 

Teshuvá

A Halachá. O procedimento tradicional para a conversão ao judaísmo foi estabelecida no Talmud. Pergunta-se a um candidato à conversão: “Por que você quer se tornar um judeu? Você não sabe que os judeus são freqüentemente perseguidos e oprimidos?” Se o prosélito persiste no seu desejo de se tornar um judeu, ele/ela é informado de algumas mitsvot maiores e menores e advertido das responsabilidades de se cumprir os mandamentos. Se o candidato à conversão aceita o “jugo dos mandamentos” (cabalát mitsvót), então ele procede com a imersão (tevilá) e, no caso de um homem, com a circuncisão (milá)1. O que deve ser enfatizado é a primazia da aceitação dos mandamentos por parte do candidato.2 Uma declaração para este efeito diante de um tribunal rabínico de três rabinos é o ato decisivo do processo de conversão.3 Conforme Rambam (Maimônides) e Josef Caro, devem encabeçar a lista dos mandamentos a serem ensinados ao candidato à conversão “a essência da nossa fé”. Usando idêntica expressão, eles escreveram:

Informe-os da essência da fé, que é a unicidade de Deus e a proibição da idolatria.4

A crença no Eterno como o único Deus e a aceitação das responsabilidades da aliança entre Deus e o povo judeu são, portanto, a condição sine qua non tradicional para a conversão ao judaísmo. Isto é dito claramente pelo rabino Yom Tov Lipman, que viveu nos séculos XIV e XV:

A nossa fé não depende da circuncisão, mas do coração. Aquele [isto é, um candidato à conversão] que não acredita sinceramente não é considerado um judeu, ainda que seja circuncidado. Mas aquele que acredita sinceramente é considerado um judeu pleno mesmo que não seja circuncidado.5

Perspectivas Reformistas. Com respeito à nossa sheelá, destacamos o Comitê de Responsa do CCAR respondeu a uma questão semelhante em 1982.6 Nossos colegas concluíram que embora um ateu não devesse ser aceito, um agnóstico poderia ser aceito se os rabinos locais estivessem convencidos de “que a sua adesão ao judaísmo e o conhecimento do mesmo são suficientes para levá-la para dentro do judaísmo e ajudá-lo a desenvolver um compromisso com esta religião.7 A parte importante que qualifica a frase é compromisso com esta religião. O judaísmo reformista é um movimento religioso, uma comunidade de fé dedicada a Deus. Um guer deve demonstrar prontidão em aceitar esta fé a fim de se integrar à nossa comunidade.

O judaísmo reformista há muito estabeleceu políticas liberais e de aceitação aos candidatos à conversão. A segunda convenção da CCAR (1891) e a terceira (1892) debateram as exigências e os rituais para a conversão. Isaac Mayer Wise escreveu o relatório da comissão sobre conversão, que concluiu que é legal e adequado aceitar na sagrada aliança de Israel:

...qualquer pessoa honrada e inteligente que deseja esta afiliação, sem qualquer rito de iniciação, cerimônia ou observância; contanto que esta pessoa se familiarize suficientemente com a fé, a doutrina e o cânone de Israel;... e que ele ou ela declarem verbalmente e em um documento assinado e selado diante de um rabino oficiante e seus associados a sua firme intenção e resolução:

1. Adorar o Deus Único, Exclusivo e Eterno, e nenhum outro além Dele...8

Assim, para o judaísmo reformista, um candidato à conversão deve abraçar o povo judeu e fazer uma declaração solene de fé em Deus, o Deus de nossos antepassados, como o Deus único e exclusivo. Embora muitos rabinos continuem com certos rituais e outras obrigações tidas como obrigatórias para o candidato à conversão (por exemplo, imersão, circuncisão, um curso de estudos, exames, etc.), a condição sine qua non da conversão para o judaísmo reformista, assim como para todas as correntes do judaísmo, sempre foi a fé em Deus. A centralidade de Deus na cerimônia de conversão no judaísmo reformista é verificada pelo exame dos sucessivos manuais rabínicos publicados pela CCAR.

A edição revisada do Manual do Rabino exige que o convertido declare:

Eu, ________________, declaro, por meio desta, diante da presença de Deus e das testemunhas aqui reunidas, que eu, de minha própria e livre vontade, busco a congregação de Israel e que eu aceito plenamente a fé de Israel. Eu acredito que Deus é Um, Todo-Poderoso, Todo-Sábio e o Santíssimo. Eu acredito que o homem é criado à imagem de Deus; que é o seu dever imitar a santidade de Deus; que ele é um agente voluntário, responsável para Deus por suas ações; e que ele está destinado à vida eterna. Eu acredito que Israel é o povo dos sacerdotes de Deus, o mestre universal em religião e em retidão, conforme expresso na nossa Bíblia e interpretado no espírito da tradição judaica.... 9

Foi julgado essencial que o candidato à conversão compreenda claramente a importância do seu comprometimento com o povo judeu e com Deus.

O mais recente manual rabínico da CCAR, publicado em 1988, mantém a tradição de perguntar ao candidato à conversão sobre a sua crença em Deus. A primeira pergunta feita é: “Você escolhe entrar na Aliança Eterna entre Deus e o povo de Israel e se tornar um judeu por sua própria e livre vontade?”10 A implicação está clara. Para se tornar um judeu, o judaísmo reformista exige que o convertido afirme a convicção em Deus e no laço único entre Deus e o povo judeu.11

Deve-se enfatizar que a declaração de fé não exige que o guer / a guitoret aceitem um conceito particular de Deus, mas simplesmente que ele ou ela estejam aptos a afirmar a realidade de Deus em nossa vivência religiosa. A conversão, como o nosso movimento a entende, é uma cerimônia religiosa, que marca uma transformação na identidade espiritual (como também étnico-cultural) do prosélito. Nós não convertemos as pessoas ao “judaísmo secular”.

Alguns contestam que, uma vez que temos entre os membros das congregações reformistas certos judeus que são ateus declarados ou agnósticos, não deveríamos hesitar em aceitar um convertido que se enquadra em uma destas categorias. É verdade que alguns judeus experimentam crises de fé. Nós reconhecemos a realidade da viagem espiritual e lutamos para que nossos irmãos e irmãs permaneçam, e eles continuam sendo parte de nós desde que não abandonem o nosso povo nem se unam a outra religião. Porém, esta flexibilidade está reservada àqueles que já “são cidadãos”, que já pertencem. É da natureza do processo de conversão que o convertido deve satisfazer padrões que, na prática, não são exigidos de um judeu: um programa de estudos judaicos, a exigência da freqüência à sinagoga, a participação na sinagoga e nas atividades comunitárias, e assim por diante.

A tarefa do rabino é determinar a sinceridade religiosa do convertido — novamente, um teste não administrado àqueles que já pertencem ao povo judeu. É um princípio básico do movimento reformista (assim como da halachá) que a derradeira determinação da admissão de um convertido depende do julgamento rabínico, baseado em um conhecimento pessoal do candidato. Um nascido judeu é, por definição, um membro do nosso povo, mas um guer deve demonstrar primeiro não apenas uma vontade de se identificar conosco, mas também uma compreensão e aceitação do papel de Deus na vivência contínua do nosso povo.

No nosso caso, a candidata à conversão demonstra um amor pelo povo judeu e pela cultura judaica, que parecem fazer dela uma provável candidata à conversão. O problema é a sua ambivalência sobre Deus. Não está claro por que ela é classificada como agnóstica e não como atéia. Os ateus negam absolutamente a existência de Deus. Os agnósticos, por definição, sustentam que qualquer coisa além e aquém do fenômeno material é simplesmente incognoscível.12 Nossa sheelá registra duas opiniões da candidata à conversão. Ela declara que não há aspecto do universo além do material, e sustenta que “a coincidência e a química são responsáveis pelo universo tal como nós o vemos”. A sua primeira declaração é claramente ateísta. A segunda poderia ser interpretada como agnóstica.

Conseqüentemente, se, na opinião dos rabinos que a atendem, ela é uma atéia, então a posição do Comitê de Responsa é bem conhecida: ela não deve ser aceita.13 Contudo, se ela está, como uma agnóstica, simplesmente insegura ou confusa, então deveria ser instruída cuidadosamente e apresentada aos diversos ensinos teológicos que enriquecem a nossa fé. Faça-se com que ela aprenda que nós não somos tão arrogantes a ponto de reivindicar que sabemos tudo sobre Deus, mas que a nossa fé não tem dúvidas de que não podemos compreender a vida sem Deus.

Por fim, é imperativo que os rabinos oficiantes estejam convencidos de que esta mulher possa proferir com consciência clara a afirmação exigida por nosso movimento: que Deus existe e que o povo judeu está ligado a Ele por uma aliança sagrada e eterna. Se os rabinos oficiantes não acreditam que ela pode proferir esta afirmação de pleno coração, então deve ser dado a ela mais tempo de estudo e reflexão, de forma que ela tenha a oportunidade de entender o significado religioso de se tornar um membro do povo judeu.

Está claro que nós, judeus reformistas, e particularmente nós, rabinos reformistas, temos a responsabilidade de estabelecer e manter os padrões que definem o nosso movimento e tornar os candidatos elegíveis para a inclusão. Este princípio foi ilustrado recentemente pelo caso de uma congregação secular-humanista que desejava se unir ao movimento reformista. O Comitê de Responsa foi perguntado se uma congregação que excluía Deus dos seus serviços religiosos deveria ou não ser admitida como membro da URF (União do Judaísmo Reformista, antiga UAHC).14 A resposta do Comitê foi não, e depois de muitos anos de discussão, esta decisão foi apoiada por uma esmagadora maioria da Diretoria de Notáveis da União (Reformista).15

O judaísmo reformista é um movimento religioso de judeus dedicados à Aliança entre Deus e o povo judeu. Se nós não insistirmos que o guer satisfaça este padrão fundamental e sinta-se pronto para afirmar a realidade de Deus na vivência e na vida religiosa judaica, seria legítimo perguntar se nós temos algum padrão.

Notas
1. BT. Yevamot 47a-b; SA, YD 268:3
. 2. Mark Washofsky, "Halakhah and Ulterior Motives," Conversion To Judaism in Jewish Law, editado por Walter Jacob e Moshe Zemer, Pittsburgh, 1994, p. 37, nota #1.
3. Tosafot to BT, Yevamot 45b, s.v. mee lo tavlah.
4. Rambam, Yad Hilkhot, Isurei Bi'ah, 14:2; Karo, SA, YD, 268:2. Ver também, Maggid Mishneh, s.v. keitzad mekabbelin..
5. Sefer Nitzachon:, cited by Solomon B. Freehof, "Circumcision of Proselytes," Reform Responsa for Our Time, p.75.
6. American Reform Responsa (1983), #65, pp. 209-211.
7. Ibid. pp. 211.
8. Yearbook, Proceedings of the Third Annual Convention, CCAR, 1892, pp. 94-95.
9. Rabbi's Manual, rev. ed. (1936), pp. 31-32.
10. Pp. 201-202.
11. O candidato deve escolher fazer a sua própria afirmação clara de Deus e da Aliança.
12. Oxford English Dictionary, London, 1971.
13. American Reform Responsa, #65, pp. 209-11.
14. Ver p. deste volume.
15. UAHC Board of Trustees (Diretoria de Notáveis), reunião em Washington, DC., EUA, 11 de junho de 1994, votado 115-13 (com 4 abstenções) contra admitir a congregação humanista Beth Adam de Cincinnati, Ohio. Ver Reform Judaism, Winter 1994, pp. 25-27.

CCAR RESPONSA
Central Conference of American Rabbis

http://data.ccarnet.org/cgi-bin/respdisp.pl?file=2&year=5765
Tradução: Uri Lam
Fevereiro de 2006 / Shevat 5766

O CCAR foi fundado em 1889. Trata-se de um corpo de rabinos que se consideram e são considerados o rabinato organizado do Judaísmo Reformista. Seus membros são rabinos reformistas ordenados no HUC-JIR (Hebrew Union College – Instituto Judaico de Religião), assim como rabinos reformistas ordenados em seminários liberais na Europa, e alguns rabinos que se uniram ao movimento reformista em algum momento posterior à ordenação. A maior parte destes últimos foi ordenado ou pelo JTS (Jewish Theological Seminary – Movimento Conservativo) ou no Reconstructionist Rabbinical College (Movimento Reconstrucionista).

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