NYP no. 5763.6
Tradução: Uri Lam
Fevereiro de 2006
Pergunta:
Eu tenho duas perguntas relativas ao teor da liturgia que usamos em nossas sinagogas reformistas:
1. O movimento reformista busca incluir as Matriarcas na benção Avot (na Amidá). Qual ordem é apropriada: os nomes dos três Patriarcas devem vir primeiro, seguidos pelos das Matriarcas, ou as esposas devem ser emparelhadas com os seus maridos (Avraham veSara), etc? Na minha opinião o objetivo de reduzir o preconceito de gênero é melhor alcançado com a última abordagem e, portanto, esta é preferível.
2. Das quatro mulheres que geraram os filhos de Jacob, mencionamos Lea e Rachel na benção Avot. Bilá e Tsilpá deveriam ser incluídas como Matriarcas? Ao omitir estas mulheres, o movimento reformista dá aprovação tácita à idéia de que a mulher é vista como propriedade. Mesmo após a morte de Rachel e Lea, Israel se refere a Bilá e Tsilpá como suas esposas. Na minha opinião, é essencial ao conceito de igualdade somar estas duas mães omitidas na lista das Matriarcas.
Pelo fato de o novo sidur (livro de orações) reformista estar quase concluído, estes dois assuntos precisam de atenção imediata. Eu aguardo suas respostas. (Hazán Jerome Krasnow, South Windsor, o CT)
Resposta:
1. As Matriarcas na Tefilá [1]. Tonrou-se um min’hag (costume) bastante difundido em nossas congregações somar os nomes das Imaot, as Matriarcas Sara, Rebeca, Lea, e Rachel, aos nomes dos Avot, os Patriarcas Abrahão, Isaac e Jacob, na primeira bênção da Tefilá [Amidá] [2]. Os motivos para esta mudança no texto da oração tradicional são expressar a nossa compreensão de que todos os judeus, homens e mulheres, participam igualmente da Aliança de Israel com Deus; e dar voz ao papel das nossas Matriarcas na transmissão desta Aliança aos seus descendentes. Esta inovação é consistente com a tradição litúrgica do movimento reformista, que desde o seu início acolheu a noção de que a oração pública formal recitada em nossas sinagogas deveria refletir os mais profundos valores e compromissos do nosso povo [3].
A nossa inovação também é consistente com as mais antigas tradições litúrgicas do judaísmo rabínico, o fundamento do nosso próprio serviço religioso. Nós dizemos isto em termos da história e da teoria daquela tradição. A história da oração judaica é uma história de mudança contínua e desenvolvimento, não só durante o período talmúdico, uma época em que as regras formais da prática litúrgica não haviam sido ainda estabelecidas [4], mas também durante os séculos subseqüentes, quando a halachá da liturgia judaica foi supostamente firmada [5]. Portanto, ao ajustar as palavras da Tefilá às necessidades da nossa época, estamos simplesmente o que os judeus sempre fizeram com o texto das suas orações. Além disso, a própria halachá, as “regras” e a teoria da liturgia judaica tradicional, não proíbem a inovação litúrgica. Pelo contrário: mudança, fluidez, e pluralismo são a essência da oração tal como este termo é compreendido nas fontes da lei judaica.
O Talmud define “oração” como rachamê, uma súplica sincera para Deus, mais do que uma recitação de um texto fixo; assim, “pode-se rezar do modo que se desejar” [6]. De fato, como Maimônides reconta a história, na sua forma original a mitsvá da reza na Torá não impunha nenhum texto fixo a quem rezava: pode-se chegar a Deus com suas próprias palavras, escolhendo-se aquelas que refletem o conteúdo da mente e do coração do indivíduo [7]. Com o passar do tempo, naturalmente, a comunidade judaica adotou um texto fixo para a Tefilá ou Shemone Esrê (as “Dezoito Bênçãos”) [8]. Este texto foi levado muito a sério. O Talmud chega a ponto de declarar que “aquele que altera a matbêa (forma) de uma brachá (bênção) que os Sábios ordenaram não cumpriu a sua obrigação” [9]. Contudo, nem sequer esta regra nos proíbe de fazer ajustes apropriados ao texto da liturgia: uma brachá pode partir do seu teor aceito, contanto que o conteúdo e tema do novo texto correspondam àqueles da forma tradicional (inyán habrachá) [10]. A nossa versão da primeira bênção da Tefilá mantém o seu conteúdo tradicional e tema: que o nosso Deus é também o Deus dos nossos antepassados, os progenitores bíblicos do povo judeu. Nosso texto certamente não aqueles judeus que se opõem impetuosamente a qualquer inovação litúrgica [11]. No entanto, está de acordo com a história da oração judaica e com as demandas da halachá litúrgica.
2. A Ordem dos Nomes. Agora nos voltamos às questões específicas do nosso shoêl (aquele que pergunta). É melhor, como ele sugere, recitar os nomes das Imaot (Matriarcas) ao lado dos nomes dos seus maridos ou recitá-los em separado, como é o nosso costume? Naturalmente, não há uma resposta correta a esta questão. Nosso shoêl pode estar certo quando diz que a sua versão — “o Deus de Abrahão e Sara, o Deus de Isaac e Rebeca”, e assim por diante — é o mais igualitário [12]. Contudo, pode ser discutido que o seu texto poderia surtir o efeito contrário, apresentando as Matriarcas principalmente como esposas, mais do que como indivíduos, cada uma com a sua própria relação pessoal com Deus. De fato, a nossa fórmula “feminina” — “o Deus de Sara, o Deus de Rebeca, o Deus de Lea, e o Deus de Rachel” [13] — expressa a idéia de que as Matriarcas são equivalentes aos Patriarcas tanto coletiva como individualmente. Além disso, a fórmula atual — “o Deus de Abrahão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacob” — é levado literalmente da narrativa da Torá acerca da revelação de Deus a Moisés na sarça ardente [arbusto em chamas] (Êxodo 3:15 e 4:5). A Tefilá está repleta de citações bíblicas, e preservar estas expressões na nossa oração reforçam a conexão entre a nossa comunidade atual e as nossas origens como o Povo da Aliança. Em resumo, cada uma destas duas fórmulas tem suas vantagens, e não vemos razão maior para exigir que uma versão seja valorizada em detrimento da outra.
3. As Criadas. Os nomes de Bilá e Tsilpá, as criadas de Rachel e Lea, devem ser incluídos na Tefilá? Novamente, pode-se argumentar em favor desta ausência do nosso min’hag reformista. Como indica o nosso shoêl (aquele que faz a pergunta), a Torá se refere a estas duas mulheres como as “esposas” de Jacob (Gênesis 30:4,9; Gênesis 37:2), embora em outro lugar as chame de suas concubinas (Gênesis 35:22) [14]. Além disso, há um texto midráshico que conta Bilá e Tsilpá entre as “seis Matriarcas” de Israel [15]. Finalmente, pode ser discutido que incluir as criadas na nossa oração é fazer uma forte declaração contra o elitismo social e a favor de uma atitude afirmativa na direção das diversas estruturas familiares [16].
No entanto, pode ser dito muito também em defesa do nosso costume atual. Nós separamos os nomes Sara, Rebeca, Lea e Rachel, não por causa do seu status legal, mas porque cada uma delas assume um papel central na narrativa bíblica: na relação delas com suas famílias, maridos, e filhos; e na sua influência nos eventos que moldaram o curso da história israelita. Em outras palavras, cada uma destas quatro mulheres se mostra para nós com suas próprias personalidades, não simplesmente como esposas dos Patriarcas. Na realidade, a tradição agádica as considera como profetisas [17], recipientes da Revelação Divina. Isto sugere que é possível ver Sara, Rebeca, Lea e Rachel como parceiras, ao lado dos seus maridos, no estabelecimento da Aliança. Ao incluirmos os seus nomes na primeira bênção da Tefilá, nós simplesmente assumimos esta concepção judaica tradicional e fazemos isto explicitamente. Em contrapartida, nenhum destas características se aplica a Bilá e Tsilpá, que simplesmente não ocupam uma posição assim exaltada na narrativa bíblica e na memória religiosa do povo judeu [18].
Assim, também neste caso, embora se peça que os judeus reformistas incluam os nomes de Bilá e Tsilpá na primeira bênção da Tefilá, não encontramos razão maior para recomendar esta mudança na nossa prática atual.
NOTAS:
1. Não é a função deste Comitê determinar o texto, estrutura, ou teor do novo sidur (livro de orações) da Conferência Central de Rabinos Americanos (CCAR). Estas tarefas pertencem aos editores do sidur, supervisionado pelo Comitê de Liturgia da CCAR (como foi dito, o novo sidur da CCAR, Mishkan Tefilah, ainda está em preparação). Por isso não nos aventuramos a emitir qualquer opinião aqui sobre o texto apropriado do novo sidur. Nós levamos bastante em conta esta sheelá (pergunta) porque toca num tema da observância religiosa judaica reformista e, como tal, pertence à função deste Comitê.
2. Esta inovação aparece em recentes publicações litúrgicas da Conferência, incluindo Gates of Prayer for Shabbat (New Iork: CCAR, 1992). Nosso sidur oficial “atual”, Gates of Prayer: The New Union Prayer Book (New York: CCAR, 1975), não inclui as Imaot (Matriarcas) nos textos hebraicos da Tefilá, mas as menciona em várias traduções para o inglês destes textos (por exemplo, nas pp. 229 e 356).
3. Para o registro histórico da inovação litúrgica dentro do nosso movimento, veja Jakob J. Petuchowski, Prayerbook Reform in Europe: The Liturgy of European Liberal and Reform Judaism (New York: World Union for Progressive Judaism, 1968), e Eric L. Friedland, Were Our Mouths Filled With Song: Studies in Liberal Jewish Liturgy (Cincinnati: Hebrew Union College Press, 1997).
4. O espaço não nos permite citar a longa lista longa de trabalhos acadêmicos da história da liturgia judaica que discutem este ponto. Nós nos restringimos a mencionar dois deles: Stefan C. Reif, Judaism and Hebrew Prayer (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), e Joseph Heinemann, Prayer in the Talmud (New York: de Gruyter, 1977).
5. Dois de nossos colegas de CCAR produziram pesquisas inovadoras nesta área: Lawrence A. Hoffman, The Canonization of the Synagogue Service (Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1979), e Ruth Langer, To Worship God Properly: Tensions Between Liturgical Custom and Halakhah in Judaism (Cincinnati: Hebrew Union College Press, 1998).
6. TB Berachot 20b e Sotá 33a.
7. Yad, Tefilá 1:1-3. Rambam (Maimônides) considera que esta oração é uma mitsvá da Torá, desde um midrash sobre Deuteronômio 11:13, que exige que se “sirva a Deus com todo o seu coração”: “O que é este ‘serviço do coração’? É a oração” (TB Taanit 2a). Nem todos os halachistas aceitam esta narrativa. Nachmânides, por exemplo, sustenta que a oração judaica foi originada não como um mandamento da Torá, mas como uma prática popular, refletindo a necessidade e desejo dos seres humanos de se comunicarem com Deus. Veja esta hassagá para o Sefer Hamitsvot de Rambam, mandamento positivo n° 5. Contudo, cabe destacar que ambas as autoridades concordam que a Tefilá foi originalmente uma expressão oral que não tinha um texto fixo, definido ou estruturado.
8. Yad, Tefilá 1:4. Rambam sustenta que este texto foi instituído por “Ezra (Esdras) e seu bet din (corte rabínica)”. Esta é a sua versão da tradição talmúdica que atribui o texto da Tefilá aos “120 anciãos, incluindo os últimos profetas” (TB Meguilá 17b) ou aos “membros da Grande Assembléia” (TB Berachot 33a). Os historiadores da liturgia judaica não levam estas declarações ao pé da letra, embora alguns são de opinião que a Tefilá foi de fato um produto de determinação formal por parte de uma instituição religiosa-legal. A narrativa de Rambam afirma a concepção tradicional de que as formas específicas da oração que recitamos é miderabanan, ou seja, estabelecida por um decreto rabínico (tacaná).
9. TB Berachot 40b, seguindo a opinião de Rabi Yose.
10. Rambam, Yad, Berachot 1:5-6. Se este é o caso, então o que, na visão de Rambam, constitui uma “mudança inaceitável” na matbêa de uma bênção? A resposta pode ser encontrada em Yad, Keriát Shemá 1:7. Ali, Rambam escreve que como Ezra (Esdras) e o seu bet din (tribunal rabínico) instituíram as formas das bênçãos, “não se pode acrescentar ou retirar algo delas. Onde (os Sábios) exigem que se conclua com uma chatimá (i.e., recitar a fórmula “Baruch Atá” (Bendito sejas Tu) ao término de um parágrafo), não é permitido fazer outra coisa... Eis a regra geral: que altera a matbêa (forma) de uma brachá (benção) que os Sábios estabeleceram incorre em erro e deve repetir a brachá”. Em outras palavras, uma mudança inaceitável na forma de uma brachá está definida como uma alteração na sua fórmula estrutural. Uma mudança no teor de uma bênção, inclusive no teor da sua chatimá, não está definida como uma alteração imprópria de sua forma e é então é halachicamente aceitável, na medida em que a nova forma nova mantém o conteúdo e tema (inyáan) da matbêa tradicional. Este é o sentido claro das decisões de Rambam acerca destas passagens, e é o modo que o rabino. Yossef Caro também o entende; veja o último Kessef Mishnê, Berachot 1:5-6.
11. Por exemplo, nós imaginamos que o próprio Rambam não gostaria da nossa inserção dos nomes das Imaot (Matriarcas). Em Yad, Berachot 1:5, ele escreve que “não é apropriado (veêin raui) alterar os textos das brachot (bênçãos), acrescentar ou subtrair delas”. Todavia, como diz Caro (Kessef Mishnê ad loc.), Rambam claramente não diz que aquele que modifica as palavras tradicionais de uma brachá não cumpre a sua obrigação ritual. Na visão de Rambam, na medida em que a pessoa retém o tema e conteúdo da brachá tradicional, “não é um erro (taút)” recitar a bênção de acordo com o seu teor alterado, embora ele preferisse que o indivíduo não fizesse esta mudança lingüística. Em outras palavras, a oposição à inovação litúrgica per se é uma questão de estilo e temperamento, e não de lei litúrgica.
12. Isto também reflete a natureza histórica e em desenvolvimento da nossa compreensão de Deus: a Aliança é passada de geração em geração, e cada geração chega à sua própria avaliação dedos seu termos.
13. O nosso sidur atual menciona Lea antes de Rachel. Contudo, é perfeitamente aceitável alterar esta ordem, de acordo com o versículo 4:11 do livro de Ruth.
14. Ver Ramban (Nachmânides) sobre Gênesis 37:2, fim: talvez Jacob tenha feito de Bilá e Tsilpá suas esposas após as mortes de Rachel e Lea. Esta elevação no status legal delas pode ser visto como um esforço para assegurar que os filhos que elas geraram de Jacob (e as tribos que descenderam deles) sejam considerados iguais aos seus demais filhos. Rashi aponta para esta possibilidade, enquanto o rabino David Kimchi declara isto explicitamente; veja os seus comentários sobre Gênesis 37:2.
15. O texto em Bamidbar Rabá 12:17 (Vilna ed.) encontra paralelo em Shir Hashirim Rabá 6:2 e em Ester Rabá 1:12.
16. O rabino Richard Rheins, membro pertencente a este Commitê, declara: “Eu acredito que é nosso dever nos conscientizarmos do papel abençoado que Bilá e Tsilpá exerceram como mães e mantenedoras do nosso povo. Questões acerca do status social delas ou mesmo das suas origens étnicas é irrelevante. A Torá não nos dá maiores detalhes sobre suas vidas. De acordo com isso, a ambivalência do texto nos permite exercer a liberdade interpretativa de vermos Bilá e Tsilpá em papéis que soam modernos e familiares. Na era moderna, casamentos inter-religiosos, segundos casamentos, pais solteiros e filhos adotados são comuns. E apesar disso a qualidade de uma família não pode ser julgada por sua composição. A essência de uma família é o comprometimento de cada um dos seus membros para amar e manter. Aqueles que cumprem este comprometimento merecem a nossa honra, respeito e admiração, independente da sua etnicidade ou status social. Uma inclusão de Bilá e Tsilpá seria um modelo de papel efetivo para aqueles de famílias não-convencionais”.
17. Bereshit Rabá (Vilna ed.) 67:9 e 72.6. Sara é um caso especial: considera-se que o seu dom de profecia excedia o do seu marido (TB Meguilá 14a; Shemot Rabá 1:1; Rashi sobre Gênesis 21:12).
18. Nós discordamos da afirmação do shoêl (aquele que faz a pergunta) de que ao omitir os nomes destas criadas “o movimento reformista dá aprovação tácita à idéia de que a mulher é vista como propriedade”. Por esta lógica, também se poderia dizer que, ao mencionarmos os nomes de Lea e Rachel, nós damos a nossa aprovação tácita à idéia da poligamia. Esta conclusão, obviamente, seria absurda.
ATENÇÃO: Copyright © 2006, Central Conference of American Rabbis – TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Porém, sinta-se à vontade para copiar e repassar os artigos da nossa website, desde que gratuitamente e que o texto de direitos autorais abaixo seja incluído. É vedada toda a reprodução com fins lucrativos e monetários, bem como a reprodução sem indicação da fonte.
Copyright © 2006, Central Conference of American Rabbis - translated to Portuguese by Uri Lam of www.judaismoprogressista.org - published with permission from the author.

