A Arca Portátil

NARR 73-75

Tradução: Uri Lam
Março de 2006

PERGUNTA: O arquiteto que está se ocupando do projeto de uma nova sinagoga deseja criar uma arca portátil para a Torá. Isto será funcionalmente útil, uma vez que planejamos muitos serviços religiosos externos e sentimos que tornaria a sinagoga mais parecida com o Tabernáculo do deserto, dos tempos antigos (da época bíblica). É permitido imitar o Tabernáculo desta maneira? (Fred A. Rosenberg, Los Angeles CA)

 

RESPOSTA: A arca bíblica à qual você se refere era muito diferente, tanto na função quanto em suas implicações teológicas, da arca das sinagogas posteriores. A arca apareceu primeiramente no Livro do Êxodo (25:16; 26:33; 37:1-9) e novamente em Deuteronômio (10:3 em diante). Esta foi primorosamente descrita com suas dimensões precisas e o material para sua fabricação. As Tábuas da Lei estavam depositadas dentro dela. Subseqüentemente, a arca foi mencionada diversas vezes subseqüentemente nos Livros de Samuel (I Samuel 4:7; 7:1; II Samuel 6:14 em diante) e depois em conexão com a construção e dedicação do Templo (I Reis 3:15; 6:19 em diante; 8:1 em diante; II Reis 23:12; II Crônicas 35:3 em diante). No antigo Templo a arca era central e estava localizada na área conhecida como Cadosh Hacodashim (o mais sagrado dos lugares sagrados do Templo); após o seu desaparecimento, o Cadosh Hacodashim permaneceu vazio (Flávio Josefo, Guerras, V.5; Massechet Yomá 5:2 em diante). Durante o período bíblico havia muitos termos para denominar a arca, sendo que os mais comuns eram Aron Hacódesh, Aron Habrit, Aron Adonai, Aron Elohim ou Aron Haedút. Nas sinagogas posteriores a arca da Torá foi denominada Tevá ou, em geral nas sinagogas sefaradís, Hechál.

Naturalmente, a arca de sinagoga também exercia um papel central no serviço religioso como o armário que continha a Torá. Antigamente a arca era móvel e era removida juntamente com a Torá ao término do serviço (Sotá 39b; M. Meg. 4:21). Os resquícios das antigas sinagogas em Bet Alfa, Hamat por Gadara, Eshtemoa, Ostia, Sardis, bem como Dura Europa indicavam um espaço para a arca da Torá (Franz Landsberger "The Sacred Direction of the Synagogue", Hebrew Union College Annual, Vol. 28 pp 185 ff.; e Joseph Gutmann "Programmatic Painting in the Dura Synagogue”, “The Synagogue: Studies in Art, Archaeology and Architecture” pp. 217 ff; Lee I. Levine (ed) Ancient Synagogues Revealed).

O Templo e a sinagoga estão relacionados, embora sejam muito diferentes quanto ao propósito, estrutura e função. Os Salmos usados no Templo foram levados para a liturgia da sinagoga acompanhados de melodias (E. Werner, The Sacred Bridge). A Menorá do Templo não foi copiada de forma exata (Men. 28b; R. H. 24a; A. Z. 43a — claramente apenas referências judaicas babilônicas), mas nada foi dito a respeito de outras formas arquitetônicas. Não havia proibição relacionada à arca, que já havia desaparecido há muito tempo, mas certamente foram proibidos os querubins em suas formas tridimensionais. Seria inadequado copiar a arca do Templo em uma sinagoga contemporânea por causa do temor de imitação, uma vez que a função é totalmente outra.

Nós não sabemos quando a arca se tornou parte permanente do edifício da sinagoga. Uma antiga referência foi fornecida por R. Isaac (Or Zerua Vol. 2 pp. 386 f). A sua santidade era maior do que a da sinagoga e menor do que a da Torá (M Meg 25; Tur e Shulchan Aruch 153:2 Orach Chayim). Uma arca que ficasse permanentemente na parede não tinha qualquer santidade a mais do que a da da sinagoga (Shulchan Aruch 154:3 Orach Chayim) e alguns estudiosos indicaram que a arca poderia ser usada para armazenar livros sagrados ao lado da Torá (Sefer Chassidim #60; Shulchan Aruch Orach Chayim 154:8). Algumas autoridades consideraram que a arca tornou-se secundária, uma vez que os modernos Sifrê Torá (os rolos de pergaminho da Torá) estão cobertos com uma capa especial e a arca já não serve como a primeira proteção para a Torá, ou seja, esta perdeu o seu status anterior (Corban Natanel para Rosh 4.1).

A arca da sinagoga desenvolveu-se em uma direção muito diferente daquela da antiga arca perdida do Templo. Não haveria nada de errado em projetar uma arca portátil semelhante às arcas das antigas sinagogas como uma reminiscência daquelas. Todavia, nós não devemos imitar a arca do Templo.

Dezembro de 1990 (Walter Jacob)

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Copyright © 2006, Central Conference of American Rabbis - translated to Portuguese by Uri Lam of www.judaismoprogressista.org - article by Walter Jacob - published with permission from the author.



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