Hipótese Documentária

Por Fábio Lacerda

Outubro de 2007

Legenda e observações: AEC (antes da era comum) é o equivalente a "a.C." (antes de Cristo) que é usado em textos cristãos para marcar o ano e a época. Então se o texto diz "ano 500 AEC" (ano 500 antes da era comum), isso é equivalente a "ano 500 a.C." (ano 500 antes de Cristo).
Ilustração abaixo: a ilustração abaixo foi criada e foi publicada aqui em inglês. O nome da fonte sacerdotal em português, de acordo com o artigo abaixo sobre a Hipótese Documentária, é S, em inglês é P ("the Priestly source"). Ou seja, P na ilustração é equivalente a S no artigo abaixo.

Uma análise literária mostra que o Pentateuco (Torá escrita) não foi escrito somente por uma pessoa mas por várias. Linhas múltiplas de tradições foram combinadas para produzir e finalizar a Torá.

A visão mais convincente para a maioria dos eruditos que são críticos ao Pentateuco é chamada de Hipótese Documentária, ou a Hipótese de Graf-Wellhausen, nome dado aos acadêmicos do século XIX que puseram a hipótese na sua forma clássica.

 

Em resumo, a Hipótese Documentária vê a Torá sendo redigida por uma série de editores retirados de quatro grandes linhas de tradições literárias. Estas tradições são conhecidas como J, E, D, e S. O diagrama com suas relações aparece abaixo:

J (o Javeista ou a fonte de Jerusalém) usa o Tetragrama (YHVH) como o nome de Deus. O interesse da fonte indica que ela foi ativa no reino do sul de Judá na época do reinado dividido. J é responsável pela maioria do Gênesis.

E (o Elohista) usa Elohim ("Deus") como o nome divino até Êxodo 3-6, onde o Tetragrama é revelado a Moisés e a Israel. Essa fonte parece ter vivido no reino do norte de Israel durante o reinado dividido. E escreveu o conto da aquedá (a atadura de Isaque) e outras partes de Gênesis, e bastante de Êxodo e Números.

J e E foram combinados como um só trabalho bem cedo, aparentemente depois da queda do reino do norte em 722 AEC. É geralmente bastante difícil de separar as histórias de J e E depois da fusão.

D (o Deuteronomista) escreveu quase todo o livro de Deuterônimo (e provavelmente também os livros de Josué, Juízes, Samuel, e Reis). Acadêmicos muitas vezes associam Deuterônimo com o livro achado pelo Rei Josias em 622 AEC (veja 2 Reis 22)

S (a fonte Sacerdotal) forneceu o primeiro capítulo de Gênesis, Livítico e outras seções com informação genealógica da classe de sacerdotes e culto. De acordo com Wellhausen, S foi a informação menos antiga. Os sacerdotes colocaram a Torá na sua forma final um pouco depois de 539 AEC.

R (o Redator) pode ser a mesma pessoa que S, mas foi a pessoa que juntou todos os trabalhos de J, E, S, e D para concluir a Torá que conhecemos hoje em dia.

Eruditos críticos mais contemporâneos não concordam com Wellhausen e entre eles próprios, especialmente no detalhe de quem foi adicionado por último, se D ou S. Mas todos eles concordam que o que é abordado em geral pela Hipótese Documentária é a melhor explicação pelas histórias dúplicas, tríplicas, contradições, diferenças na terminologia e teologia, e os interesses geográficos e históricos que encontramos em várias partes da Torá.

Estas são algumas diferenças entre as quatro linhas de tradição:

    J (Javeista):

  • Escritos se focam na humanidade.
  • Pode possivelmente ser uma mulher. Os escritos dele(a) mostra mais sensitividade a mulheres do que E.
  • Dá ênfase a Judá (sul).
  • Dá ênfase aos líderes.
  • Fala de Deus em maneira antropomórfica.
  • Deus anda e fala com as pessoas.
  • Deus é YHVH.
  • Usa "Sinai".
  • O hebraico usado foi provavelmente escrito entre 848 AEC e 722 AEC.

    E (Eloista):

  • Era um homem.
  • Dá ênfase ao Reinado de Israel (norte).
  • Dá ênfase a profecias.
  • Escreveu os 10 mandamentos em Êxodo 20.
  • Fala de Deus em uma forma aprimorada.
  • Deus se comunica com humanos nos sonhos.
  • Deus é Elohim (até Êxodo 3).
  • Hebraico provavelmente escrito entre 922 AEC e 722 AEC.
  • Pode ser um sacerdote que vê Moisés como um ancestral espiritual.
  • Sinai é "Horeb"

    S (Sacerdotal):

  • Era um sacerdote que identificava Aarão como seu ancestral espiritual.
  • Não concordava com o trabalho de J, E, e D; criou uma história alternativa.
  • Viveu depois de J, E, e D porque conhecia os livros dos profetas que os outros não conheciam.
  • Viveu quando a religião chegou ao estágio Sacerdotal/Jurídico, antes da destruição de Jerusalém em 587 AEC.
  • Dá ênfase a Judá (sul).
  • Dá ênfase ao culto.
  • Fala de Deus de forma majestosa.
  • Vê um Deus distante, menos pessoal que J e E; algumas vezes crítico e severo. A palavras "misericórdia", "graça", e "arrependimento" não aparecem nos seus escritos (embora aparecem 70 vezes nos escritos de J, E, e D).
  • Aborda Deus através de cultos.
  • Deus é El Shadai e Elohim.
  • Tem geneologias e listas.

    D (Deuteromomista):

  • Viveu depois de J e E, porque sabia sobre acontecimentos mais recentes na história de Israel.
  • Viveu em uma época em que a religião do antigo Israel estava em seu estágio espiritual/ético (cerca de 622 AEC).
  • Era provavelmente um sacerdote levítico. Talvez Jeremias.
  • Um segundo escritor editou o texto original depois da destruição de Jerusalém em 587 AEC.
  • Põe ênfase em um santuário central.
  • Promove fidelidade à Jerusalém.
  • Fala de Deus lembrando de Seu trabalho.
  • Método moralista.
  • Deus é YHVH.
  • Inclui longos sermões.

    R (Redator):

  • Foi um sacerdote Aaronita, o que significa que era um homem.
  • Juntou os trabalhos de J, E, D, e S para finalizar a Torá como ela é hoje.
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