Um judeu pode se casar com um “judeu” messiânico?

Link: http://data.ccarnet.org/cgi-bin/respdisp.pl?file=150&year=arr

(Vol. XCI, 1981, pp. 67-69)

Tradução: Uri Lam

PERGUNTA:
Um rabino reformista poderia oficiar um casamento entre uma moça judia e um rapaz nascido judeu, mas que agora se considera um “judeu” messiânico? Isto está em consonância com o judaísmo reformista? (Rabino Seymour Prystowsky, Lafayette Hill, Pensilvânia, EUA)

 

RESPOSTA:
O judaísmo reformista se tem se oposto firmemente aos casamentos mistos. Isto já valia no século passado e continua valendo no século 21. Na reunião em Nova York em 1909, a Conferência Central de Rabinos Americanos (CCAR) aprovou a seguinte resolução:

“A Conferência Central de Rabinos Americanos declara que casamentos mistos são contrários à tradição da religião judaica e devem, portanto, ser desencorajados pelo rabinato americano” (Anuário da CCAR, vol. 19, pág. 170). Esta resolução foi reafirmada como parte de um longo relatório de 1947 (Anuário da CCAR, vol. 57, pág. 161). Foi aprovada uma resolução consideravelmente mais forte em Atlanta, em 1973. Lemos a seguir em seu texto:

A Conferência Central de Rabinos Americanos, ao retomar a sua posição adotada em 1909, de que “os casamentos mistos são contrários à tradição judaica e devem ser desencorajados”, agora declara a sua oposição à participação de seus membros em qualquer cerimônia que solenize um casamento misto.

A Conferência Central de Rabinos Americanos reconhece que historicamente seus membros sustentaram e continuam sustentando interpretações divergentes da tradição judaica. A fim de manter aberto todo canal, para o judaísmo e para Clal Israel, para aqueles que já são parte de um casamento misto, a CCAR convoca seus membros a:

1. Ajudar completamente na educação, como judeus, dos filhos de casamentos mistos como judeus;

2. Oferecer a oportunidade da conversão para o cônjuge não-judeu; e

3. Estimular um envolvimento criativo e consistente na comunidade judaica e na sinagoga. (Anuário da CCAR, vol. 83, pág. 97)

Estas resoluções declaram claramente a posição do rabinato reformista sobre este tema. Elas refletem apenas os passos mais recentes na longa luta contra os casamentos mistos que começou nos tempos bíblicos e que agora será traçado como pano de fundo para esta resolução. O Comitê de Responsa escreveu longas responsum sobre este assunto. Está publicado no Anuário de 1980 (pp. 86-102) e apresenta uma boa quantidade de material de base.

Se nós considerarmos um “judeu” messiânico como um judeu apóstata, qual seria o status dele para nós? O judaísmo sempre considerou aqueles que nos deixaram como pecadores, mas ainda judeus. Eles sempre poderiam retornar ao judaísmo por teshuvá e a resposta exata do judaísmo dependia muito das condições da época. Hai Gaon (conforme citado por Adret, Responsa VII, #292) achava que uma apóstata não poderia ser considerado como um judeu. Séculos depois, os rabinos da bacia do Mediterrâneo tiveram que lidar com a questão dos marranos (anussim). A atitude deles variou enormemente e pode ser resumida em 5 posições: 1) Apóstatas são judeus que pecaram mas, não obstante, são considerados judeus (Isaac bar Sheshet; Simon ben Zemah de Duran, embora em algumas ocasiões ele não tenha concedido este status; Solomon ben Simon Duran; Zemah ben Solomon).

2) Apóstatas só são considerados judeus para efeito de matrimônio (e assim, a sua descendência é judia), mas não em qualquer outra área (Samuel de Medina).

3) Marranos (Anussim) são considerados não-judeus sob todos os aspectos, inclusive para questões de matrimônio; seus filhos não são considerados judeus (Judah Berab, Jacob Berab, Moses ben Elias Kapsali, etc.).

4) Um apóstata é pior do que um pagão (ben Veniste, Mercado ben Abraham).

(5) Os descendentes dos marranos que foram batizados são como crianças judias que foram levadas cativas por não-judeus, e seus filhos são judeus (Samuel ben Abraham Aboab).

Todas estas referências e excertos da literatura pertinente podem ser encontradas em H. J. Zimmels, Die Marranen em der Rabbinischen Literatur, pp. 21ff. Uma posição extrema foi sustentada por Solomon ben Simon Duran (Rashbash Responsa, #89) que achava que não só o apóstata, mas também seus filhos continuariam sendo considerados judeus para sempre no futuro , desde que a linha materna fosse judia. Ele também considerava que nada precisava ser feito por geração alguma destes apóstatas quando eles retornassem ao judaísmo. Nenhum banho ritual nem qualquer outro ato seriam considerados necessários ou desejáveis. Na realidade ele enfatizou que não fosse dada nenhuma atenção ao estado prévio deles, pporque isso poderia desencorajar o seu retorno. Rabenu Guershon deu uma visão semelhante e urgiu a aceitação tranqüila de todos os que retornassem ao judaísmo (Machzor Vitry, pp. 96 e 97).

O outro extremo foi apresentado por Rashi (em seu comentário para Kidushin 68b e Levítico 24:10). Ele entendia que qualquer apóstata que fizesse retorno, ou os filhos de uma mãe que houvesse sido apóstata, são potencialmente judeus, mas devem passar por um processo semelhante ao de uma conversão de quiserem fazer parte da comunidade judaica. Este ponto de vista foi rejeitado pela maioria dos estudiosos posteriores como, por exemplo, Nachmânides (em seu comentário para Levítico 24:10; Shulchan Aruch Iorê Deá 268.10f; Ezekiel Landau, Responsa, #150, etc.).

Assim sendo, nós temos dois extremos na literatura rabínica; ambos, obviamente, representaram reações a condições históricas particulares. Solomon ben Simon de Duran desejava facilitar a um grande número de marranos o retorno ao judaísmo; infelizmente, isto não aconteceu. Até mesmo quando era possível para os judeus deixar a Espanha, a maioria preferiu permanecer. A atitude severa de Rashi provavelmente refletia o pequeno número de apóstatas que eram um espinho junto à comunidade francesa. O judaísmo rabínico normativo escolheu um caminho do meio, ao encorajar o retorno do apóstata por meio de alguns estudos, mas sem um processo de conversão formal. Se um apóstata não desejasse retornar ao judaísmo ele poderia, não obstante, ser considerado como parte do povo judeu (Sanhedrin 44a). O seu casamento, se executado de acordo com a lei judaica como marranos, e assim sendo, como apóstatas involuntários, seria válido (Yebamot 30b; Shulchan Aruch, Even Haezer 44.9); para eles os procedimentos de divórcio eram um tanto diferentes. Um indivíduo assim não era considerado como uma testemunha confiável no caso de uma aguná. Poderiam ser impostas penalidades á sua herança (Kidushin 18a), embora ele tivesse o direito à herança (Baba Batra 108a-111a). Os ritos normais de luto não deveriam ser observados para uma pessoa assim (M. San. 6.6; Shulchan Aruch Iorê Deá 345.5). Portanto, está claro que um apóstata fica de fora da comunidade em tudo, exceto algumas questões, até que decida retornar. Logo, não podemos oficiar um casamento entre um apóstata e uma moça judia.

Por outro lado, nós ainda podemos considerar um “judeu” messiânico como um judeu?

Ele pode se definir desta maneira, mas nós podemos fazer o mesmo? Um “judeu” messiânico é uma pessoa que se autodenomina judeu, mas acredita que Jesus de Nazaré é o Messias e que vem para cumprir as promessas messiânicas. Ao afirmar estas coisas, este indivíduo se define claramente como um cristão. Ele pode ser um pouco diferente de outros cristãos nas práticas judaica que segue, mas em termos de convicção teológica e padrões básicos de vida, ele é um cristão. Nós devemos nos lembrar que há uma extensa variedade de seitas cristãs que também observam várias leis e costumes judaicos — os Adventistas do Sétimo Dia observam o Shabat como o dia de descanso deles; algumas igrejas de cristãos negros celebram festividades judaicas, etc. Então, está claro que a menos que o jovem renuncie á sua convicção em Jesus de Nazaré e se torne um judeu em vez de um “judeu” messiânico, nós devemos considerá-lo um cristão e não podemos oficiar o seu casamento com uma moça judia.

Nós devemos ser muito mais rígidos em nossa relação aos “judeus” messiânicos do que em relação a outros cristãos com quem buscamos estabelecer continuamente boas relações inter-religiosas. As igrejas cristãs normativas são conhecidas por suas convicções e práticas e são facilmente discerníveis por nosso povo. Embora elas possam continuar buscando alguns convertidos do judaísmo, atualmente a maioria das igrejas não busca atividades missionárias junto a judeus. Por outro lado, o oposto direto vale para os “judeus” messiânicos. Eles estabeleceram uma presença missionária vigorosa e buscam freqüentemente confundir os judeus sobre a natureza da religião deles. Eles se apresentam freqüentemente como judeus em vez de cristãos, por meio de folhetos, anúncios e serviços religiosos enganosos. Nós devemos fazer tudo eo que estiver ao nosso alcance para impedir estes conceitos equivocados e manter uma rígida separação com qualquer pessoa ligada a estes grupos. E é óbvio que não devemos oficiar um casamento entre uma moça judia e um rapaz “judeu” messiânico.

Walter Jacob, presidente

Leonard S. Kravitz

W. Gunther Plaut

Harry A. Roth

Rav A. Soloff

Bernard Zlotowitz

ATENÇÃO: Copyright © 2008, Central Conference of American Rabbis – TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Porém, sinta-se à vontade para copiar e repassar os artigos da nossa website, desde que gratuitamente e que o texto de direitos autorais abaixo seja incluído. É vedada toda a reprodução com fins lucrativos e monetários, bem como a reprodução sem indicação da fonte.

Copyright © 2008, Central Conference of American Rabbis - translated to Portuguese by Uri Lam of www.judaismoprogressista.org - article by Walter Jacob and published with permission from the author.



Copyright © 2007Central Conference of American Rabbis
All Rights Reserved